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Visualizando- Fui traído(a) no amor, e agora? por Paulo Ghiraldelli Jr.

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Fui imaginando que o Jô Soares iria me fazer uma pergunta sobre adultério. Pois, se há uma pergunta que aparece para quem fala ou escreve sobre o amor é essa, a célebre questão da “traição”. Como a conversa não foi por aí, resta agora eu mesmo tocar no assunto, uma vez que, novamente, os leitores – principalmente as leitoras – têm insistido no tema.

Vejam só que eu não escapei de falar a palavra “adultério” como sinônimo de “traição”! Pois é! Não escapei do vocabulário popular. Não há quem não faça isso. É errado? É certo?  Adultério é adultério, traição é traição. Por que tomamos tais palavras como se pudessem ser intercambiáveis? Bem, pela prática comum entre nós de acreditar que a monogamia é uma regra que se torna moral senão por uma coisa: a promessa de que se troco intimidades com uma pessoa, não devo trocar com outra. Ao menos não no mesmo período. O amor completo, que inclui o sexo, implica em troca de intimidades. Fico sabendo dos segredos de meu parceiro ou parceira na cama. Não de todos os segredos, mas de alguns fundamentais. Podem ser importantes, podem ser banais. Mas, não importa, são segredos! E é isso que faz com que o adultério se pareça com a traição. Ir para a cama com outro ou outra é levar o segredo dele ou dela para outro ou outra. É isso, enfim, que machuca.

Ora, quando digo isso, não são poucos os que não entendem e replicam: “ora, posso muito bem ir para a cama de outro ou outra e não dizer nada, não abrir a boca sobre a pessoa oficial, com quem mantenho um relacionamento estável, então, que segredo eu estaria contando?” É exatamente isso que muitos homens e mulheres não entendem, não passamos segredos por contar ou não alguma coisa, entregamos segredos porque o grande segredo é a intimidade, são os suores trocados, as juras de amor, os cheiros, talvez os tais feromônios! Esse momento, essa vivência, forma um campo magnético, um local de segredo.  Criar esse mesmo ambiente com outro é, de certa forma, levar uma parte do parceiro oficial para o convívio com outro. Eis aí o grande drama da dor do traído.

Quer apostar que é isso? Eu explico!

Quando um homem é traído, ele quer saber quem é o outro e não se furta em pedir detalhes. Talvez, mesmo dolorido ao extremo, ele se excite com os detalhes. Ele quer poder formar uma imagem da esposa ou namorada fazendo sexo oral com o outro. Um descuido, e pode até perguntar se ela tomou o sêmem do outro ou não. Não são poucos os homens que se comportam de modo ridículo nessa hora, mesmo sabendo que estão sendo ridículos. As mulheres perguntam outros detalhes, mas também querem saber de pequenas coisas. A mulher traída quer saber, principalmente, no que a outra é melhor que ela – quer saber especificidades do corpo da outra. Quer saber o lugar da traição. Fica com mais raiva, ainda, se descobrir que foi na sua própria cama! Essa conversa entre casais, quando as traições são expostas, nada são senão a busca de confirmação do que é temido: que fluídos foram trocados no amor. Saber disso é, em parte, materializar a intimidade, tentar ver o que da intimidade oferecida para o parceiro ou parceira, que é palpável, que foi parar no corpo do outro ou outra, que serviu de substância para a montagem do novo momento de intimidade, aquele que caracterizou a traição.

Há mulheres que levam isso ao extremo, consideram a efetivamente dolorosa quando seu parceiro não só penetrou a outra, mas trocou longos beijos com ela. Há homens que fazem algo parecido, mas em relação à posição do amor, querem saber se a mulher ficou de quatro para o outro. E, é claro, como já disse, se fez ou não sexo oral. Troca de fluídos é o que importa. Ou melhor dizendo: é o que se teme. Pois nessa troca é que se materializa, se petrifica, se consolida que uma intimidade foi transferida “materialmente” para a construção da outra intimidade. A situação é quase que metafísica, se é que não é mesmo metafísica. Mas, como toda metafísica que se faz fora de época de metafísica, cai-se rapidamente para a busca de um ponto absoluto e indestrutível que precisa ser material. Uma intimidade é revelada para a outra porque fornece material para a outra. Há uma espécie de reificação do amor, ele se torna coisa. Mas há também um fetichismo, de coisa que ele vira, ele passa a ser, logo, uma coisa viva, um monte de fluídos que correram de um lado e que, então, são oferecidos de outro lado.

Troquei fluídos com você. Você levou parte de meu corpo com você. E então, na cama de outro ou outra, você soltou seus fluídos, junto com os meus, para seu novo parceiro ou parceira. É essa estranha sensação que faz com que chamemos o adultério de traição. Você me levou para a cama do outro sem eu saber que eu estava lá. Eu era sua, você me entregou para outra, para uma mulher! Eu era seu, você me entregou para a outro, para um homem! Há aí, também, um outro elemento: a traição também assim se caracteriza porque você me fez homossexual. Você colocou os meus fluídos, trocados com você, no caldo de outros fluídos, material este de gente do mesmo sexo que eu. Sinto-me então realmente traído ou traída.

Há graus para a percepção disso. Caso todos percebessem isso dessa maneira, assim, não seria preciso o filósofo tentar explicar o adultério como traição. Algumas pessoas não conseguirão enxergar essa relação de cunho metafísico. Irão ficar no banal, ou seja, irão dizer assim: “ah, não é nada disso, eu só quero que ele seja meu e não seja de outro, não quero que ele diga para mim que me ama e então ame outra”. Mas, ficar nisso é ficar no banal. Desbanalizar o banal é conseguir olhar para o sexo no adultério, algo tão comum, descrevendo-o com um vocabulário novo. Não tão novo. O vocabulário que escolhi aqui é posto numa formulação nova. Mas, o que eu disse, não é senão o que é possível ouvir nas brigas de casais. Tudo que falei acima é realmente dito. As pessos conversam assim a quatro paredes, perguntam detalhes, querem saber. Elas querem poder reconstruir o sexo na traição não para sofrerem duas vezes e se desencantarem como o parceiro ou parceira que os traiu. Nada disso. Elas querem mesmo é saber como que os fluídos ficaram ao final, como foi a troca no corpo a corpo. Por isso se quer tanto saber sobre o beijo na boca, a troca de salivas, ou o sexo oral. “Você chupou o pau dele, mas engoliu?”

Pode parecer esquisito tudo isso. Mas, quanto mais velho ficamos, mais podemos saber que uma tal situação não nos é estranha. Algumas pessoas mais pudicas podem não ter tido esse comportamento, quando de se colocar em pratos limpos uma traição. Mas, tal comportamento não é incomum. É na linguagem que a briga conduz que é possível colher tudo que é necessário saber para poder ver como é que consideramos o adultério uma traição. Doar nossa intimidade ao outro – é isto que é o trair. E isso que nos faz efetivamente sofrer.

Quando podemos escapar disso, nos certificando que não houve troca de intimidades para além do que podemos suportar, perdoamos a traição. Há a reconciliação. Todavia, o amor é um cristal, o melhor é nunca quebrá-lo. Pois, de fato, não há concerto para quebra de cristal. Um homem inteligente nunca trai a mulher que ele ama e que o ama, pois não haverá volta. Uma relação adúltera é o começo de um relacionamento e o fim de outro. Não tem como. Assim, se alguém ama sua pardeira e a trai, ele não é um “galinhão”, ele é outro tipo de animal, ele é “burro”.  Como não ser burro? Ah, simples: basta que saibamos que não somos monogâmicos por natureza e, sim, por decisão cultural. Poucos de nós sabe disso. Por isso, muitos de nós constroem suas próprias infelicidades.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

 


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